PRIMEIRA PESSOA

Minha vida se tornou um inferno

Adriell Rodrigues Alves Costa, 35 anos, soldado da PM

query_builder 6 set 2017, 20h30

Em 2008, trabalhei como guarda-vidas temporário do Corpo de Bombeiros de Santos por causa do aumento do efetivo na alta temporada. Isso fez com que eu almejasse ser policial militar. Fiz curso de técnico de enfermagem e tinha verdadeira paixão em ajudar o próximo. Estudei, me preparei e prestei o concurso para a Polícia Militar no mesmo ano. Em 2009 eu já estava na escola de soldados.

Depois da formação, fui trabalhar em Diadema, onde fiquei até 2011. Nesse período sofri um acidente de trabalho durante o meu expediente na PM. Eu estava no meu horário de almoço e, ao atravessar a rua na faixa de pedestres, um carro me atingiu. Fui arremessado para o outro lado. Ao cair em cima da minha mão, tive fratura exposta, quebrei três dedos e fiquei com os movimentos comprometidos. Fiz várias cirurgias para melhorar ou recuperar o movimento da mão direita, mas nada resolveu.

Por causa dessa sequela e limitação, depois de passar pela junta médica de especialistas do Hospital da Polícia Militar, fui autorizado a retomar as funções, mas com restrições. Eu não faria mais parte da equipe operacional (que sai às ruas) e só poderia fazer trabalhos internos e administrativos. O acidente foi tão grave que recebi indenização da própria PM.

Fui transferido para Mauá, onde fazia as atividades internas normalmente. Mas, como sou da Baixada Santista e o deslocamento diário era cansativo, além de aumentar a minha dor, eu me inscrevi no banco de dados interno e me candidatei a uma vaga no batalhão da PM em São Vicente. Achei que estando perto dos meus pais e mais próximo do local de trabalho as coisas seriam mais fáceis. Me enganei. Foi meu maior erro pedir essa transferência, pois foi por causa dela que meus problemas dentro da PM começaram.

Em fevereiro de 2016, fui transferido para São Vicente. Ao me encontrar com o comandante do batalhão, surgiu o primeiro assédio moral. Ele me disse que, por causa das minhas restrições de saúde, eu não seria útil para o batalhão, que ele precisava de alguém ágil e que fosse para as ruas e que ali eu seria um peso morto. Fiquei superchateado, pois fiz o processo de transferência como determina o regimento e tenho as restrições desde 2011.

"Tinha o sonho de ser policial, crescer na corporação. Hoje vejo esse sonho destruído"

O comandante mandou que eu passasse por um médico em Santos, e esse médico retirou todas as restrições, afirmando que eu estava apto ao trabalho nas ruas. Contestei, mostrei os laudos do próprio hospital da PM e do IML (da época do acidente), mas ele não aceitou. A partir desse momento, comecei a ser perseguido.

No batalhão, o comandante me colocou para fazer serviços gerais de obras: carregar entulhos, latas, madeiras, fazer faxina e outros serviços pesados que pioravam a lesão na minha mão, causando inflamações e dores constantes. Mesmo argumentando que tinha dor, ele não cedia. Algumas vezes fui até o pronto-socorro da cidade, onde ficava constatado o problema, o médico me dava atestado de afastamento e a corporação não aceitava. Eu era obrigado a continuar trabalhando, caso contrário me prenderiam por insubordinação.

Fui preso administrativamente pelo menos quatro vezes por causa dos dias em que não aguentei a dor e cheguei atrasado ou faltei ao trabalho com base no atestado médico. Ficava em uma cela insalubre, com mictório ao lado da cama, como se ter um problema de saúde fosse um crime. Também abriram vários processos administrativos por causa dessas ausências ao serviço.

Quando souberam que sou homossexual, começaram a dizer que eu não era homem, que tinha de agir como se fosse homem. Passaram a me controlar em tudo, até para ir ao banheiro eu tenho que pedir permissão. Dizem que eu invento doença. Não me deixam usar os computadores da corporação. Todos os dias arrumam alguma coisa para me importunar. Isso tudo me causa sofrimentos físicos e psicológicos constantes. Desde que assumi o posto em São Vicente, minha vida se tornou um inferno.

Todas essas humilhações foram documentadas e abri reclamações no próprio batalhão, na Ouvidoria e na Corregedoria da PM. Nunca me responderam e nada foi feito para tentar resolver o problema. Num momento de desespero, decidi gravar um vídeo relatando o problema. Meu objetivo era chamar a atenção das autoridades, do Ministério Público, dos Direitos Humanos. Sempre fui um bom funcionário, não é justo o que estou passando.

Hoje (terça-feira 5) fui removido para outro batalhão, em Santos, provavelmente por causa da repercussão do caso. É meu primeiro dia, ainda não sei bem o que vou fazer. Estou completamente desmotivado com a PM por tudo o que passei aqui dentro. Tinha o sonho de ser policial, crescer na corporação. Hoje vejo esse sonho destruído. Vivo com medo de represália e não sei como será o dia de amanhã.

Depoimento colhido por Fernanda Bassette
Foto (Divulgação/Adriell/FACE)