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Roberto Medina

"Estou frustrado"

O criador do Rock in Rio revela as excentricidades das estrelas do rock, admite que falta renovação na música e lamenta a ausência da Lady Gaga na abertura do festival

Por Monica Weinberg e Thiago Prado

query_builder 14 set 2017, 14h00

O empresário Roberto Medina, de 68 anos, abre o sétimo Rock in Rio na sexta-feira, dia 14, com o país em turbulência e o estado do Rio mergulhado na maior crise econômica da história. Nem parece: os 700 000 ingressos estão esgotados desde abril, o que faz do festival uma ilha de prosperidade com retorno certo para os 200 milhões de reais investidos e uma invejável lista de artistas internacionais, como Justin Timberlake, Guns N’ Roses e Red Hot Chilli Peppers – escalação que se tornou viável, diz, porque o Brasil saiu da “idade da pedra” do showbiz. Nesta entrevista a VEJA, Medina conta histórias do festival, comenta a triste situação da política e do Rio de Janeiro e revela que neste Rock in Rio ele impôs, sim, o seu gosto pessoal: está trazendo o The Who, banda que adora.

Qual o impacto do cancelamento do show de Lady Gaga em cima da hora? A minha mensagem para os fãs é que estou tão frustrado quanto eles com esse cancelamento. Queríamos muito a Lady Gaga no evento e ela também queria muito estar aqui conosco. Mas essas coisas acontecem e garanto que assim que ela estiver com a saúde restabelecida participará de um dos nossos eventos. O impacto desse cancelamento não é significativo pois temos mais de 500 atrações por dia. Apenas 0,7% dos fãs demonstraram interesse de pedir reembolso até agora. Além disso fomos rápidos na substituição pelo Maroon 5 que foi o dia que esgotou primeiro nas vendas e com mais demanda.

Artista dá trabalho? Dá muito trabalho. Veja o Axl Rose. Ele só usa nove calças jeans de um certo modelo. Uma vez esqueceu no avião justamente a que cismou de usar no show. Saímos todos correndo, enlouquecidos, para o aeroporto. Sem falar que atrasa três horas nas apresentações.

E no capítulo das exigências esdrúxulas? O Prince era muito chato. Pediu 400 toalhas para o dia do show. Bati pessoalmente na porta dos motéis da Barra da Tijuca para pedir ajuda. Consegui as 200 e ele só usou três. Distribui as 197 que sobraram. O Elton John exigiu no camarim uma rosa branca com cabo de exatos 14 centímetros. Com o tempo aprendi a entender melhor esse mundo.

Por que o Rock in Rio repete tanto os artistas que se apresentam? Eu faço uma conta simples. Para o negócio se viabilizar, a estrela principal da noite precisa juntar um público de 100 000 pessoas. No mundo todo existem, no máximo, vinte nomes com esse potencial. Ao fazer a lista, uso pesquisas para me balizar, além de um pouco do bom senso que adquiri ao longo dos anos.

Também usa seu gosto pessoal? Muito pouco. Desde o primeiro Rock in Rio que eu queria trazer a banda inglesa The Who, que adoro. Só este ano pude fazer a minha vontade. Como eles não atraem 100 000 pessoas -- no máximo, metade disso --, chamei o Guns ´N Roses para dar uma compensada. Sei que vou perder dinheiro com dois cachês altos na mesma data. Mas é bom para mim, é bom para o monte de fãs do The Who e é bom também para a marca do festival, claro.

A maioria das bandas este ano tem músicos acima dos 50 anos. Falta renovação no rock? Sim, mas não acho que seja um problema exclusivo do rock. Há muita música fast food por aí, que desaparece com a mesma velocidade com que aparece. A enorme quantidade de informação faz com que seja muito mais difícil um artista se destacar. Mesmo quando ele vence um programa como o The Voice, um canhão de audiência, some rapidamente e ninguém sabe mais quem é. A competição por relevância atualmente é gigantesca.

"Prince exigiu 400 toalhas para o dia do show. Tive que percorrer motéis do Rio de Janeiro para atende-lo. Já Elton John pediu uma rosa branca com um cabo de exatos 14 centímetros"

Anitta anda fazendo muito sucesso, até no exterior. Por que ela ficou de fora do festival? Não tem nada a ver com antipatia a ela. Simplesmente não nos programamos para incluir o funk no Rock in Rio. Mas ela está realmente cada vez mais pop e eu percebo que gostaria de participar. Quem sabe na próxima edição ela esteja no palco.

Os preços dos ingressos fazem do Rock in Rio um festival elitista? Para o povo que nós somos, o festival é caro sim. A maioria da população é pobre. Mas pela quantidade de shows, tecnicamente a entrada deveria custar o dobro. Não custa isso porque bancamos boa parte das despesas com o dinheiro dos patrocinadores. Também poderíamos cobrar menos que 455 reais se não houvesse a exigência da meia entrada.

Foi difícil convencer artistas a participar deste Rock in Rio, com a imagem da cidade manchada pela crise na segurança? A percepção do Rio de Janeiro lá fora está ruim mesmo, mas isso não chegou a atrapalhar o festival. Teve gente que até ligou se oferecendo a vir, como foi o caso de Lady Gaga. Hoje é muito mais fácil atrair artistas ao Rio. Nos anos 1980, quando começamos, o Brasil estava na idade da pedra do showbiz. Não havia nem som, nem luz que prestasse. As bandas que se arriscavam tinham os equipamentos roubados. Quando despenquei para Nova York com a ideia do Rock in Rio na cabeça, bati na porta de setenta empresários. Sabe quantos nãos eu recebi? Setenta.

O que fez esta situação mudar? Quem me salvou foi o Frank Sinatra, que eu conhecia por ter organizado o primeiro show dele no Brasil. Eu estava quase desistindo e pedi ajuda. Sinatra pegou o telefone e ligou para os empresários que conhecia dizendo: ‘Esse cara tem palavra. Pode confiar nele.’ Resultado: consegui fazer a escalação para o primeiro festival. Até o James Taylor, que andava recolhido em uma fazenda enfrentando sérios problemas com drogas, topou participar. Ele disse depois que o show mudou a vida dele, ajudou-o a retomar a carreira.

Por que Sinatra foi tão prestativo? Em janeiro de 1980, eu o convenci a fazer seu primeiro show no Brasil, no Maracanã. Ele impôs uma condição: embarcar às 9 da noite em ponto de volta aos Estados Unidos, onde tinha outro espetáculo marcado. Na noite do show, chovia torrencialmente no Rio, e tudo indicava que a apresentação teria que ser cancelada. Eu movi mundos e fundos para divulgar insistentemente o Sinatra no Maracanã, no rádio e na televisão, e ainda convenci o piloto do avião fretado a dizer que não havia condições de voo na hora marcada. O estádio lotou, com 170 000 pessoas. Sinatra, que tinha combinado dar uma canja de 10 minutos, entrou no palco, o toró deu uma trégua e ele cantou por quase duas horas seguidas. Até chorou, emocionado. Ali criamos um elo.

O senhor disse recentemente que pensou em deixar o Rio. Por que? Realmente cheguei a discutir com minha mulher a possibilidade de irmos embora da cidade. Por um instante, senti vontade de jogar a toalha. Mas depois voltei atrás e pensei que aqui é o meu lugar. Nova York tem muro pichado, esgoto passando na frente, mendigo dormindo na rua e todo mundo acha mágico. Aqui no Rio, achamos tudo péssimo. Estamos com um complexo de vira-lata forte demais e eu me incluo nisso. Olha o poder que a Olimpíada teve. Em vinte dias, mudou a percepção do país inteiro sobre a cidade.

Mas ela acabou e tudo voltou a piorar. É verdade, foi um banho de água fria. Mas não acho que tenha sido errado fazer a Olimpíada. O problema é que não pensaram no depois. Este Parque Olímpico que sediará o festival estava abandonado. Foi vendo isso que resolvi a agir além do Rock in Rio e expor ao prefeito Marcelo Crivella o projeto de criar um calendário de eventos para a cidade, chamado “De janeiro a janeiro”.

"Em Nova York tem muro pichado, esgoto passando, mendigo dormindo na rua e todo mundo acha mágico. Já no Rio achamos tudo péssimo. Estamos com complexo de vira-latas"

Como é este projeto? A base da indústria do turismo no Rio é zero. Se ela crescer 20%, o que é irrisório, vai gerar 170 mil empregos e 170 milhões de reais para os cofres municipais. Como a prefeitura do Rio está com problemas de caixa, fui bater na porta do governo federal. Mirei nos patrocínios de 1,2 bilhão de reais anuais do governo via estatais como Banco do Brasil, Caixa Econômica e Petrobras. Pedi apenas 15% para o Rio. Serão 200 milhões que vão oxigenar a cidade inteira.

Acha justo o Rio ter tratamento especial? São Paulo faz dinheiro, mas é o Rio que projeta a imagem internacional. Entendo que Pernambuco e outros estados tenham problemas de segurança. Mas quando morre uma pessoa baleada aqui no Rio, sai no New York Times. Se isso acontece em Pernambuco, não sai em lugar nenhum. Temos que cuidar primeiro do Rio de Janeiro. Aqui é a porta de entrada do Brasil.

Não é muito bairrismo? Reconheço: sou bairrista. Não aceito que existam 30 000 homens das Forças Armadas e eles não possam trabalhar na área de segurança, atuar com mais vigor no Rio. O Exército vai ficar para sempre de mãos atadas, sem fazer nada, esperando por uma guerra que nunca vai acontecer? Desde o tempo em que fui sequestrado, nos anos 90, ouço esse papo de que o Exército não pode colaborar com a segurança pública. Para mim, é balela.

O senhor pretende se candidatar a algum cargo? Muitos partidos já me procuraram, mas não há hipótese de isso acontecer. Levantam o meu nome porque não há liderança alguma neste país. O cenário é de terra arrasada. Quando aparece alguém com qualquer bandeira, como é o meu caso, as pessoas já pensam que há por trás dos projetos uma intenção de se candidatar.

Não é bom que ter gente de fora na política? O problema é que o mundo do empresário não é o da política. Queremos respostas rápidas e resultados a curto prazo e não engolimos algumas peculiaridades típicas dos políticos. Por exemplo: se vou a um debate e ofendo um político canalha, ele não vai ligar. Se o inverso ocorre, ficarei arrasado.

Como o senhor se sente vendo tantos empresários como Eike Batista, seu ex-sócio, envolvidos em corrupção? É muito triste. Vivemos um período em que há uma busca desenfreada por dinheiro. É uma ganância que não acaba. A geração nova, dos meus filhos, sofre com isso. Eles contabilizam dinheiro o tempo todo.

Mas o senhor não gosta de dinheiro? Sim. Mas se você tem 1 milhão está bom. Estou falando daqueles que buscam milhões ou até mesmo bilhões de reais. As pessoas hoje colecionam dinheiro e não felicidade. Quando fiz o Rock in Rio lá atrás, não me preocupei inicialmente com qualquer estudo de viabilidade econômica. Quis apenas realizar um sonho.

No Brasil polarizado de hoje, o senhor fica à esquerda ou à direita? Minha cabeça sempre esteve no centro. Há ideias boas dos dois lados. O problema é que vivemos em um ambiente onde prevalece uma ideologia boba de separação. A existência de uma direita e uma esquerda radicais atrapalha muito o Rio. Mais a esquerda, aliás. A Zona Sul é a que pior vota na cidade. Os pais ganham dinheiro e os filhos acham cool ser de esquerda.. Espero que a gente passe o país a limpo em 2018.

Foto: Marcos Michael/VEJA