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Johan Norberg

'Não culpem a globalização'

Historiador sueco diz que a abertura dos mercados favoreceu a redução da pobreza e afirma que populistas como Trump usam o comércio e a imigração como bodes expiatórios

Por Giuliano Guandalini

query_builder 4 ago 2017, 17h00

Sorria, você vive no melhor dos tempos. Nunca na história a humanidade foi tão próspera, tão longeva, tão sadia e teve qualidade de vida tão elevada. Em 1900, a expectativa de vida média ao nascer era de pouco mais de 30 anos. Hoje, passa de 70. O contingente de pessoas alfabetizadas era de 20%. Hoje, 85%. A pobreza e a violência estão em declínio. Em 25 anos após a queda do Muro de Berlim, a renda per capita mundial cresceu tanto quanto nos 25 000 anos precedentes, graças ao avanço pelo mundo da democracia e do comércio. Para o historiador sueco Johan Norberg, as más notícias são exceções diante de todo esse progresso. Progresso, a propósito, é o título de seu recente – e elogiado – livro, lançado no ano passado e cuja versão brasileira acaba de ser lançada no Brasil pela editora Record. De sua casa, em Estocolmo, Norberg conversou com VEJA pelo Skype.

Com a ascensão do populismo na Europa e nos Estados Unidos, muito tem se falado sobre a necessidade de socializar os benefícios da globalização. Como defensor da abertura dos mercados mundiais, qual a sua avaliação? Quando observamos os diferentes indicadores sociais e econômicos, nunca vimos anteriormente um período de avanço similar ao dos últimos 25 anos. A cada segundo, três pessoas saem da pobreza extrema. Então, não tenho dúvidas de que a globalização está funcionando muito bem. Obviamente sempre haverá aqueles que não se beneficiam da globalização. Nada na vida funciona bem para todos, o tempo todo. Por isso, há forças crescentes contrárias à globalização. São forças tanto de direita quanto de esquerda.

Houve um empobrecimento relativo em regiões decadentes do antigo cinturão industrial americano. Essas pessoas, que foram decisivas para vitória de Donald Trump, podem ser consideradas perdedores da globalização? É verdade que essas pessoas ficaram para trás, mas não colocaria a culpa na globalização. O retrocesso teve início bem antes. Desde os anos 1960, os custos trabalhistas das empresas nessas áreas subiram bastante, sem que houvesse um ganho proporcional em produtividade. Além disso, em todo o mundo a indústria perdeu empregos. É culpa das máquinas, principalmente. Um estudo aponta que 88% da redução nos empregos industriais nos Estados Unidos decorreram da automação. O comércio internacional, pelo menos, contribuiu para suavizar o empobrecimento desses operários, ao reduzir o preço das mercadorias.

O governo americano deveria ter ajudada a preparar essas pessoas para a transformação econômica, ou o fenômeno era difícil de detectar? O setor público, sem dúvida, falhou. Por muito tempo, o que o governo procurou fazer, de fato, foi retirar essas pessoas da força de trabalho, concedendo programas sociais e aposentadorias antecipadas. Muito foi gasto com benefícios, e pouco em educação e treinamento. A ajuda serviu para que essas famílias tivessem suas necessidades básicas atendidas, mas não foi capaz de lhes elevar a autoestima ou dar-lhes novas habilidades técnicas.

"A cada segundo, três pessoas saem da pobreza. Não tenho dúvidas de que a globalização está funcionando muito bem. Obviamente, sempre haverá aqueles que não se beneficiam"

Qual a sua impressão do novo presidente americano? Trump parece que vai trabalhar com todas as suas forças para transformar a globalização e o comércio internacional em bodes expiatórios. Trump tem sido habilidoso em levar as pessoas a acreditar que as dificuldades decorrem da imigração ou das importações. Decisões como a de sair do Tratado do Pacífico ou erguer o muro com o México são péssimas, sobretudo para os próprios americanos.

O senhor prevê que Trump cumprirá suas promessas ou será enquadrado pelas instituições americanas? Existe uma boa chance, espero, de o Congresso impor limites às suas ambições. Trump pode ser forçado a se contentar com algumas vitórias simbólicas, mas não a ponto de arruinar o comércio internacional. Sempre haverá, contudo, o risco de um movimento similar ao dos anos 1930, depois do crash da Bolsa de Nova York em 1929. Os Estados Unidos se fecharam para o mundo, e a retórica naqueles dias não era muito diferente da usada por Trump. O protecionismo e as guerras comercias contribuíram para aprofundar a Grande Depressão. Políticos como Trump não são bons em governar, mas são exímios em apontar bodes expiatórios.

Em seu livro Progresso, o senhor lista uma série de evidências de como o mundo está hoje em uma situação mais confortável do que no passado. Somos mais livres, mais ricos, mais educados, mais saudáveis. Não há aí um eco do professor Pangloss, o otimista inveterado de Voltaire? Meu otimismo é o oposto de Pangloss. Ele diz que este é o melhor dos mundos, não pode ser melhor, mesmo se acontece uma tragédia como o terremoto que destruiu Lisboa. Para mim, ao contrário, podemos fazer muito para melhorar o mundo, até mesmo, por exemplo, evitar que pessoas continuem morrendo desnecessariamente por causa de terremotos.

Nos últimos anos, países como o Brasil e a Grécia viveram retrocesso. O ritmo de progresso mundial está fadado a desacelerar? Há problemas no sul da Europa. Precisamos avaliar, contudo, os erros cometidos pelos países da região. Com o euro, eles tiveram acesso a recursos abundantes, a um custo baixo. Em vez de investir na produtividade, seguir políticas para aumentar a competitividade e reduzir os obstáculos ao empreendedorismo, aumentaram o seu nível de consumo e os gastos públicos. Mas, uma vez superada a crise, eles poderão retomar a trajetória de desenvolvimento. Não sou expert em Brasil, mas acredito que algo semelhante tenha acontecido aí. A bonança dos recursos naturais poderia ter sido investida de maneira mais inteligente, na diversificação da economia.

"Bill Gates é provavelmente 10 milhões de vezes mais rico do que eu, mas não acredito que a sua vida seja 10 milhões de vezes melhor do que a minha"

Até pouco tempo, a visão predominante era de que os governos não deveriam se preocupar com a desigualdade. O fundamental era incentivar o crescimento, e as forças de mercado cuidariam de prover oportunidade a todos. Hoje, o aumento da desigualdade ganhou o centro das atenções. O que os governos devem fazer? Não creio que os governos devam ser obcecados com esse assunto. Em nenhum lugar do mundo a desigualdade cresceu tanto quanto na China, e isso foi ótimo. Antes, todos eram igualmente pobres. Há trinta anos, 90% dos chineses viviam na miséria. Hoje, apenas 10%. O progresso nem sempre ocorre ao mesmo tempo, no mesmo ritmo e em todos os lugares. O foco deveria ser sempre ampliar as oportunidades para todos e em reduzir a pobreza. Conforme as novas tecnologias se disseminam, mas acessíveis elas se tornaram, o número de pessoas capacitadas cresce, e tudo isso contribui para a redução na desigualdade. Bill Gates é provavelmente 10 milhões de vezes mais rico do que eu, mas não acredito que a sua vida seja 10 milhões de vezes melhor do que a minha.Empreendedores como Bill Gates e Steve Jobs fazem um tremendo serviço para reduzir a desigualdade, ao tornar a tecnologia acessível a um grande número de pessoas.

O economista italiano Luigi Zingales faz uma distinção entre capitalismo pró-negócios e capitalismo pró-mercado. Segundo ele, grandes corporações, em conluio com políticos, assumem o discurso de defesa da globalização em prol de seus negócios, e não dos consumidores e do mercado como um todo. Concorda? Desse ponto de vista, de fato, a desigualdade pode ser algo negativo. Pela força do poder econômico, as corporações podem influenciar a agenda política. Foi o que aconteceu na crise financeira. Os executivos de bancos e grandes empresas foram salvos com dinheiro dos contribuintes. Quando empresas ineficientes são protegidas, a produtividade não avança. Novos empreendedores, mais competitivos, não conseguem ter acesso ao mercado.

Os países escandinavos, particularmente a Suécia, costumam ser apontados como exemplos de justiça social. Acredita que outros países devam seguir o exemplo? É sempre difícil replicar modelos, principalmente quando não existem as pré-condições para tanto. O modelo da Suécia, de fato, é muito bom, mas deve-se entender por que ele funciona. A Suécia é um país pequeno, onde as pessoas confiam umas nas outras e existe ampla confiança na integridade do governo. Temos uma ética do trabalho, a qual alguns atribuem ao protestantismo luterano. Ainda que existam muitos benefícios sociais, as pessoas querem ser produtivas, e não viver sob o cobertor do governo. A pressão da família e dos amigos é severa. Além disso, ao contrário do que muitos imaginam, a Suécia tem uma das economias mais abertas do planeta. Existe aqui mais competição e integração ao comércio internacional do que nos Estados Unidos. Quando pessoas como Bernie Sanders (pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos) afirmam que desejam imitar o modelo sueco para os Estados Unidos, com mais gastos sociais, mas restringindo o comércio e a competição, posso dizer que seria um desastre econômico.

Em 1970, o economista americano Milton Friedman escreveu um artigo, no jornal The New York Times, em que afirmava que “a responsabilidade social de uma empresa deve ser aumentar os lucros”, e que os programas de responsabilidade social serviam apenas para “enfeitar a vitrine”. O papel da empresa ainda é apenas ter lucro? Não há dúvida que houve uma grande mudança. Ainda que muitas vezes essas iniciativas realmente não passem de enfeite de vitrine, as empresas sentem a necessidade de atuar em áreas em que os governos muitas vezes falham, como no meio ambiente e na educação. Ao mesmo tempo, é importante para a motivação dos funcionários e das pessoas que se relacionam com aquela empresa não serem máquinas de gerar lucros, e sim estarem envolvidas em algo que contribua para a comunidade. Não creio, de qualquer maneira, que sejam objetivos contraditórios. Afinal, usar os recursos da maneira mais eficiente possível tem tudo a ver com lucro.

Foto: Divulgação